Desvendando a Fisiologia do Exercício – Limiares e Consumo de Oxigênio




Na prescrição do treinamento de alto rendimento, termos como "Limiar" e "VO2" são onipresentes, mas frequentemente mal compreendidos. Para otimizar a performance, é crucial diferenciar as respostas metabólicas e ventilatórias.

 

Os Limiares Ventilatórios (LV1 e LV2)

Diferente dos métodos baseados apenas em frequência cardíaca, os limiares ventilatórios descrevem a resposta fisiológica interna do organismo ao esforço progressivo.

O Limiar Ventilatório 1 (LV1), também conhecido como limiar aeróbio. É o ponto onde a ventilação começa a aumentar de forma não linear em relação ao consumo de oxigênio (VO2max). Fisiologicamente, marca o início do acúmulo de lactato no sangue, embora o corpo ainda consiga removê-lo com eficiência. É a zona de "endurance fundamental", onde a conversa ainda é possível. O Limiar Ventilatório 2 (LV2), frequentemente chamado de limiar anaeróbio ou Ponto de Compensação Respiratória (PCR). Aqui, ocorre um aumento abrupto e desproporcional da ventilação em uma tentativa do sistema respiratório de compensar a acidose metabólica (queda do pH sanguíneo). Acima deste ponto, o exercício torna-se insustentável a longo prazo devido à fadiga precoce.

VO2 max vs. VO2 Pico ou Peak: A Distinção Científica

Embora usados como sinônimos, a literatura científica estabelece uma diferença clara O VO2max Representa o teto fisiológico do sistema de transporte e utilização de oxigênio. O critério "padrão-ouro" para sua identificação é o platô: quando a carga de trabalho aumenta, mas o consumo de oxigênio estabiliza. É a medida da capacidade máxima do "motor" aeróbio. O VO2peak é o maior valor de consumo de oxigênio atingido em um teste de esforço, mas sem a evidência de um platô. Isso pode ocorrer por fadiga muscular local, falta de motivação ou protocolos de teste que não levaram o indivíduo ao seu limite biológico real.

Em atletas de elite, o VO2 peak costuma ser o próprio VO2 max . Em populações clínicas ou iniciantes, o teste geralmente termina no "pico" antes que o platô seja atingido.

Lactato como Marcador, não Causa de Fadiga

         Historicamente, acreditou-se que a produção de lactato gerava ácido lático, que se dissociava em lactato e H+, causando a queda do pH. Hoje, sabemos que a realidade bioquímica é outra.

A Origem real dos Prótons H+

A redução da velocidade da glicólise tem origem metabólica em etapas específicas, estudos mostram que a redução do “pH-acidez”, não é suficiente para causar danos metabólicos. A redução da glicólise anaeróbia afeta toda a produção de energia pela via aeróbia, quando a demanda por energia é altíssima para produzir Adenosina Trifosfato (ATP), o Gliceraldeído-3-Fosfato, Etapa 5/6, é oxidado pela enzima gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase que requer Nicotinamida Adenina Dinucleotídeo (NAD+) para aceitar elétrons do G3F. Se o fluxo glicolítico é muito rápido, a disponibilidade de NAD+ torna-se o gargalo. A solução para o processo não parar instantaneamente é o Lactato, para que a glicólise não pare pela falta de NAD+ a célula utiliza o piruvato. A enzima Lactato Desidrogenase (LDH) reduz o piruvato a lactato, e nesse processo, oxida o NADH de volta para NAD+.


A formação de lactato é, na verdade, uma reação que consome um próton livre H+ e regenera o NAD+. Portanto, a produção de lactato atrasa a fadiga muscular, em vez de causá-la.