A natação, especialmente em águas abertas, impõe um desafio fisiológico único que difere significativamente do ciclismo e da corrida.
A natação em águas abertas e no triathlon induz a um fenômeno frequentemente associado ao que a literatura médica chama de SIPE (Edema Pulmonar Induzido pela Natação), além das respostas autonômicas agudas ao ambiente aquático.
A combinação dos fatores como a correnteza, resistência da água, ondulações, dificuldades respiratórias em função da oscilação vertical e posicionamento do corpo gera uma "tempestade perfeita" para o sistema circulatório. Ao entrar na água, especialmente fria, ocorre uma vasoconstrição periférica. O sangue é deslocado dos membros para o tronco, aumentando o volume de sangue central e a pré-carga cardíaca.
A pressão da água sobre o corpo facilita o retorno venoso, mas também aumenta a resistência contra a qual o coração precisa bombear o sangue, elevando a pós-carga. A alternância de braços e pernas exige um débito cardíaco elevado, enquanto o padrão respiratório é limitado pela face na água. Isso pode gerar uma hipercapnia leve, acúmulo de CO2 e acidose, o que aumenta ainda mais a frequência cardíaca.
Diferente da corrida, onde a gravidade ajuda na distribuição, na natação o coração trabalha em posição horizontal contra uma resistência externa constante.
A combinação de esforço intenso e vasoconstrição pelo frio pode levar a picos hipertensivos. Esse aumento súbito da pressão nos capilares pulmonares pode causar o extravasamento de fluido para os alvéolos, causando edema, dificultando a troca gasosa. Este edema dificulta ainda mais a função respiratória. Contudo ela é revertida durante os primeiros minutos do ciclismo. Por isso esta etapa é tão dura e muita vezes seguidas de elevada secreção nasal.
O conflito entre o Reflexo de Mergulho que tende a baixar a FC e a Resposta de Choque ao Frio, que eleva a FC e a ventilação, pode gerar arritmias em indivíduos predispostos. Para mitigar esses riscos e evitar que o esforço se torne um evento crítico o aquecimento fora e dentro da água é fundamental para preparar o sistema cardiovascular para a redistribuição de volume sanguíneo antes da largada. Aclimatização Térmica Reduz a magnitude do choque inicial e a resposta hipertensiva.
Em provas de triathlon, o controle do ritmo (pacing) na natação é vital para não iniciar o ciclismo com uma dívida de oxigênio impagável ou um sistema cardiovascular já em sobrecarga limite. O uso de roupas de neoprene, aumenta a flutuabilidade mas também a compressão torácica, pode ser um fator agravante ou protetor nesse cenário de colapso cardiovascular.
O empilhamento de pressões, quando adicionamos camadas de compressão externa ao cenário de imersão, criamos um ciclo de feedback que sobrecarrega severamente o ventrículo esquerdo.
A interação entre o neoprene e as roupas de compressão (macaquinhos de triathlon ou meias) atua em duas frentes perigosas.
A restrição da expansão torácica quando o neoprene, por ser um material denso e de baixa complacência, impõe uma carga mecânica extra aos músculos inspiratórios. Para manter o volume corrente necessário ao esforço, o atleta precisa gerar pressões intratorácicas negativas muito mais fortes. Isso altera a hemodinâmica interna, podendo aumentar a sucção de sangue para o coração e elevar a pressão nos capilares pulmonares.
Se o atleta já está usando roupas compressivas sob o neoprene, a vasoconstrição periférica é "ajudada" mecanicamente. Isso resulta em um deslocamento de volume sanguíneo para a região central ainda mais agressivo. O coração tenta bombear sangue contra um sistema arterial que está sofrendo compressão externa e vasoconstrição. O resultado é um aumento dramático da Pressão Arterial Sistólica (PAS), criando o efeito de "dupla compressão".
A literatura sugere que a compressão torácica excessiva é um dos gatilhos principais para o Edema Pulmonar Induzido pela Natação (SIPE). A pressão hidrostática da água, somada à tensão da roupa de borracha, eleva a pressão atrial e capilar a níveis que rompem a barreira alvéolo-capilar. Para compensar a dificuldade respiratória e a pressão aumentada, a FC tende a subir para manter o débito cardíaco, reduzindo a eficiência metabólica logo no início da prova. Uma roupa de neoprene muito apertada no tórax não é apenas desconfortável, é um risco clínico. O "conforto respiratório" deve ser prioridade sobre a hidrodinâmica. O uso de compressão excessiva nas pernas durante a natação pode fazer com que, ao sair da água e iniciar o ciclismo, a redistribuição sanguínea seja lenta ou desequilibrada, causando tonturas (hipotensão ortostática) ou cãibras precoces.
Treinar com a roupa e o macaquinho ajuda no fortalecimento da musculatura respiratória. Mas a inclusão de exercícios para o desenvolvimento desta musculatura, além de trazer ganhos em função do defict causado pelo uso da roupa, melhora o VO2max.
