Análise das Variáveis Biomecânicas e de Desempenho no Ciclismo: Impacto do Pedivela, Relação de Marcha e Pneu

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Este estudo realizou uma investigação sobre as diferenças estatísticas entre variáveis biomecânicas e de desempenho no ciclismo, com foco em cadência, torque, velocidade tangencial e arco de movimento do joelho, considerando diferentes configurações de pedivela (160, 165, 170 mm), relações de marcha (56×14, 58×14, 60×14) e tamanhos de pneu (622×25, 622×26, 622×28 mm). Os dados foram obtidos por meio de simulação computacional, mantendo potência constante de 335,86 watts para sustentar a velocidade de 45 km/h em 27 combinações de configurações. Os resultados indicaram que a relação de marcha é o principal fator para cadência e torque, enquanto o comprimento do pedivela determina velocidade tangencial e arco de movimento. O tamanho do pneu mostrou impacto desprezível nas variáveis avaliadas. A conclusão principal é que a escolha da configuração da bicicleta deve equilibrar aspectos biomecânicos e eficiência aerodinâmica, especialmente relevante para triatletas.

 Palavras-chave: Biomecânica do ciclismo. Cadência. Torque. Pedivela. Relação de marcha. Análise estatística.

 

Introdução

O ciclismo é uma modalidade esportiva que combina componentes biomecânicos complexos, fisiológicos e mecânicos, cuja otimização é fundamental para o desempenho atlético [1] [2]. A compreensão das variáveis que influenciam o desempenho e a biomecânica do ciclista é essencial para o treinamento eficaz, prevenção de lesões e otimização da configuração da bicicleta [3] [4]. A potência produzida pelo ciclista é resultado da interação entre força aplicada nos pedais e velocidade de rotação, expressa pela equação fundamental: Potência = Torque × Velocidade Angular [1]. Esta relação inversa entre torque e cadência, mantida uma potência constante, é um princípio biomecânico fundamental que influencia a seleção de configurações de bicicleta [2].

         O comprimento do pedivela, a relação de marcha (razão entre coroa e pinhão) e as características do pneu são parâmetros técnicos que influenciam significativamente as variáveis de desempenho e biomecânicas [3] [4]. Porém, a magnitude e a relevância estatística destas influências não estão completamente esclarecidas na literatura, particularmente quando analisadas simultaneamente em múltiplas combinações.

        O arco de movimento (ROM) do joelho é uma variável biomecânica crítica, associada tanto ao desempenho quanto ao risco de lesão articular [5]. Estudos anteriores sugerem que pedivelas mais curtos resultam em menor ROM do joelho, potencialmente benéfico para ciclistas com problemas articulares ou para otimização da posição aerodinâmica em triathlon [4] [5]. A velocidade tangencial da ponta do pedivela é uma variável mecânica que reflete a velocidade periférica da extremidade do pedivela, influenciada pelo comprimento do pedivela e pela cadência de pedalada. Esta variável é relevante para compreender a dinâmica mecânica do sistema de transmissão de força [1] [2].

         O objetivo deste estudo foi investigar as diferenças estatísticas entre cadência, torque, velocidade tangencial e arco de movimento do joelho em função de diferentes configurações de pedivela, relações de marcha e tamanhos de pneu, mantendo uma velocidade constante de 45 km/h. A hipótese foi que a relação de marcha seria o fator determinante para cadência e torque, enquanto o comprimento do pedivela seria determinante para velocidade tangencial e arco de movimento, com impacto negligenciável do tamanho do pneu.

 

Metodologia

 Parâmetros de Entrada

O estudo foi conduzido através de simulação computacional, utilizando as seguintes especificações:

 

Condições Fixas:

        Velocidade alvo: 45 km/h (12,5 m/s)

        Massa total: 75 kg (ciclista 65 kg + bicicleta 10 kg)

        Coeficiente de arrasto aerodinâmico (CdA): 0,25 m² (valor típico para posição aerodinâmica em triathlon)

        Coeficiente de resistência ao rolamento (Crr): 0,004 (valor típico para pneu de estrada/triathlon)

        Eficiência de transmissão: 98%

        Densidade do ar: 1,225 kg/m³

        Aceleração da gravidade: 9,81 m/s²

        Terreno: plano (sem inclinação)

 

Variáveis Independentes:

        Comprimento do pedivela: 160 mm, 165 mm, 170 mm

        Relação de marcha (coroa × pinhão): 56×14, 58×14, 60×14

        Tamanho do pneu (diâmetro efetivo): 622×25, 622×26, 622×28 mm

 

Cálculo da Potência Necessária

A potência necessária para manter 45 km/h foi calculada utilizando a equação de resistência total [1]:

 

P = (F_aero + F_roll) × V

 

Onde:

        F_aero = 0,5 × ρ × CdA × V² (força de arrasto aerodinâmico)

        F_roll = M × g × Crr (força de resistência ao rolamento)

        V = velocidade (m/s)

        ρ = densidade do ar (kg/m³)

        M = massa total (kg)

        g = aceleração da gravidade (m/s²)

 

A potência calculada foi de 335,86 watts, mantida constante para todas as simulações.

 

Cálculo das Variáveis de Saída

Cadência (RPM): Calculada pela equação:

 

Cadência (RPM) = [V / (Relação × π × D_efetivo)] × 60

 

Onde:

        V = velocidade (m/s)

        Relação = coroa/pinhão

        D_efetivo = diâmetro efetivo da roda (m)

 

Torque (Nm): Calculado pela relação fundamental:

 

  • Torque = Potência / Velocidade Angular
  • Onde a velocidade angular foi derivada da cadência em radianos por segundo.
  • Velocidade Tangencial (m/s): Calculada como:

 

V_tangencial = Velocidade Angular × Comprimento do Pedivela

 

ü  Arco de Movimento (ROM): Estimado com base em estudos biomecânicos, utilizando a relação linear entre comprimento do pedivela e ROM do joelho, com redução estimada de 0,4 graus por milímetro de aumento no comprimento do pedivela.

 

Análise Estatística

As diferenças entre grupos foram analisadas através de estatística descritiva (média, desvio padrão) e agrupamento por variáveis independentes. As variáveis foram organizadas em tabelas de contingência para identificar os fatores determinantes de cada variável de saída.


Resultados

Cadência e Torque

A análise revelou que a relação de marcha é o fator determinante para cadência e torque. Os resultados são apresentados na Tabela 1.

 

Relação

Pneu (mm)

Cadência Média (RPM)

Torque Médio (Nm)

56×14

25

88,81

36,85

56×14

28

88,03

37,18

58×14

25

85,75

38,16

58×14

28

84,99

38,51

60×14

25

82,89

39,48

60×14

28

82,16

39,83

 

A variação de cadência entre a relação 56×14 (88,81 RPM) e 60×14 (82,16 RPM) foi de aproximadamente 6,65 RPM, correspondendo a uma variação de torque de 2,98 Nm (36,85 Nm para 39,83 Nm). Esta relação inversa é consistente com o princípio fundamental de conservação de potência [1] [2]. O tamanho do pneu apresentou impacto negligenciável, com variações inferiores a 1 RPM e 0,3 Nm entre os tamanhos testados (622×25 versus 622×28).

 

Velocidade Tangencial

A análise revelou que o comprimento do pedivela é o fator determinante para velocidade tangencial. Os resultados são apresentados na Tabela 2.

 

Pedivela (mm)

V. Tangencial Média (m/s)

Desvio Padrão (m/s)

160

1,43

0,04

165

1,48

0,04

170

1,52

0,05

A velocidade tangencial aumentou linearmente com o comprimento do pedivela, refletindo a relação direta entre raio de rotação e velocidade periférica. A variação entre pedivelas de 160 mm e 170 mm foi de 0,09 m/s, representando um aumento de aproximadamente 6,3%. O desvio padrão dentro de cada grupo reflete a variação de cadência associada às diferentes relações de marcha e tamanhos de pneu [2].

 

Arco de Movimento (ROM)

        análise revelou que o comprimento do pedivela é o fator determinante para arco de movimento do joelho. Os resultados são apresentados na Tabela 3.

 

Pedivela (mm)

ROM Médio (graus)

Desvio Padrão (graus)

160

124,00

0,00

165

122,00

0,00

170

120,00

0,00

        A redução de 10 mm no comprimento do pedivela (de 170 mm para 160 mm) resultou em um aumento de 4 graus no ROM do joelho. Esta relação inversa entre comprimento do pedivela e ROM é consistente com estudos biomecânicos anteriores [4] [5], que demonstram que pedivelas mais curtos aumentam a amplitude de movimento articular.

 

Impacto do Tamanho do Pneu

O tamanho do pneu apresentou impacto estatisticamente negligenciável em todas as variáveis analisadas. A variação máxima observada foi inferior a 1 RPM para cadência e 0,3 Nm para torque, refletindo a pequena variação no diâmetro efetivo da roda (622×25 = 672 mm versus 622×28 = 678 mm, uma diferença de apenas 6 mm ou 0,9%).

 

 Discussão

Os resultados deste estudo demonstram que as variáveis biomecânicas e de desempenho no ciclismo são influenciadas de forma diferenciada pelos parâmetros técnicos da bicicleta. A compreensão destas relações é fundamental para a otimização da configuração e do treinamento [1] [3].

 

Cadência e Torque: Relação Inversa Determinada pela Relação de Marcha

A relação inversa entre cadência e torque, mantida uma potência constante, é um princípio biomecânico bem estabelecido [1] [2]. Os resultados confirmam que a relação de marcha é o fator determinante desta variação. A escolha entre uma relação menor (56×14, cadência mais alta) ou maior (60×14, cadência mais baixa) representa um trade-off entre aplicar mais força (torque) ou girar mais rápido (cadência) para manter a mesma velocidade [2].

Para ciclistas de triathlon, a cadência preferida tipicamente varia entre 85 e 90 RPM [3]. Os resultados indicam que a relação 58×14 (cadência média de 85,75 RPM) seria apropriada para este intervalo, enquanto 56×14 (88,81 RPM) seria adequada para cadências mais altas e 60×14 (82,16 RPM) para cadências mais baixas.

O impacto negligenciável do tamanho do pneu na cadência e torque é esperado, pois a variação no diâmetro efetivo é pequena (menos de 1%) comparada à variação na relação de marcha (aproximadamente 7% de diferença entre 56×14 e 60×14).

 

Velocidade Tangencial: Determinada pelo Comprimento do Pedivela

A velocidade tangencial da ponta do pedivela é determinada pelo comprimento do pedivela e pela cadência. Os resultados demonstram que o comprimento do pedivela é o fator dominante, com uma relação linear clara [2]. A variação de 0,09 m/s entre pedivelas de 160 mm e 170 mm é consistente com a relação matemática V = ω × r, onde ω é a velocidade angular (cadência) e r é o raio (comprimento do pedivela). Esta variável é relevante para compreender a dinâmica mecânica do sistema de transmissão de força e pode ter implicações para o desempenho em diferentes contextos (ex: sprint versus resistência) [2].

 

Arco de Movimento: Determinado pelo Comprimento do Pedivela

O arco de movimento do joelho é uma variável biomecânica crítica, associada tanto ao desempenho quanto ao risco de lesão articular [4] [5]. Os resultados demonstram uma relação inversa clara entre comprimento do pedivela e ROM, com redução de 4 graus ao aumentar o pedivela de 160 mm para 170 mm.

Esta descoberta é consistente com estudos anteriores que demonstram que pedivelas mais curtos reduzem o ROM do joelho [4] [5]. Para ciclistas com problemas articulares no joelho, a seleção de pedivelas mais curtos (160 mm) pode ser benéfica para reduzir o stress articular. Inversamente, para ciclistas sem problemas articulares, pedivelas mais longos (170 mm) podem ser preferidos para otimizar a aerodinâmica e a eficiência mecânica em triathlon [3].

 

Implicações Práticas para Seleção de Configuração

Os resultados indicam que a seleção adequada de configuração de bicicleta deve considerar os seguintes fatores:

 Ø  Relação de Marcha: Deve ser selecionada com base na cadência preferida do ciclista. Para triathlon a 45 km/h, cadências de 85-90 RPM são típicas, sugerindo relação 58×14 como ponto de partida.

 Ø  Comprimento do Pedivela: Deve equilibrar a biomecânica articular (ROM) com a aerodinâmica. Pedivelas de 165-170 mm são recomendados para a maioria dos ciclistas de triathlon, com 160 mm considerado para ciclistas com problemas no joelho.

 Ø  Tamanho do Pneu: Tem impacto negligenciável nas variáveis analisadas. A seleção deve ser baseada em conforto, resistência ao rolamento e condições de pista, não em cadência ou torque.



 Limitações do Estudo

        O presente estudo utilizou simulação computacional com parâmetros estimados (CdA, Crr) baseados em valores típicos da literatura. Estudos experimentais com medições diretas de potência, torque e cinemática seriam necessários para validar completamente os resultados. Além disso, o estudo não considerou variações individuais em antropometria, força muscular ou padrão de pedalada, que podem influenciar as relações observadas [1] [3].

 

 Conclusão

        Este estudo investigou as diferenças estatísticas entre variáveis biomecânicas e de desempenho no ciclismo em função de diferentes configurações de pedivela, relações de marcha e tamanhos de pneu. Os resultados demonstraram que a relação de marcha é o fator determinante para cadência e torque, com variações de aproximadamente 6,65 RPM e 2,98 Nm entre as relações testadas. O comprimento do pedivela é o fator determinante para velocidade tangencial e arco de movimento do joelho, com variações de 0,09 m/s e 4 graus, respectivamente. O tamanho do pneu apresenta impacto negligenciável em todas as variáveis analisadas, com variações inferiores a 1 RPM e 0,3 Nm. Estas descobertas têm implicações práticas significativas para a seleção de configuração de bicicleta em ciclismo, particularmente em triathlon, onde a otimização da biomecânica e da aerodinâmica é crítica para o desempenho. A seleção adequada de relação de marcha deve ser baseada na cadência preferida, enquanto a seleção do pedivela deve equilibrar a biomecânica articular com a eficiência aerodinâmica. Estudos futuros devem validar experimentalmente estes resultados e investigar as interações entre estas variáveis e outras características individuais do ciclista, como força muscular, padrão de pedalada e antropometria.

 

 Referências

1. Diefenthaeler, F.; Bini, R. R.; Vaz, M. A. (2008). Aspectos relacionados à fadiga durante o ciclismo: uma abordagem biomecânica. Revista Brasileira de Medicina do Esporte. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbme/a/CDnLj5qxhMHzDhMftVXSXFt/?lang=pt&format=html

 2. Di Alencar, T. A. M.; Matias, K. F. de Sousa (2010). Cinesiologia e biomecânica do ciclismo: uma revisão. Revista Movimenta, ISSN 1984. Disponível em: https://www.studiobikefit.com.br/wa_files/cinesiologia%20e%20biomecanica%20do%20ciclismo%20-%20uma%20revisao.pdf

 3. Diefenthaeler, F.; Bini, R. R.; Vaz, M. A. (2012). Análise da técnica de pedalada durante o ciclismo até a exaustão. Motriz, Rio Claro, v.18, n.3, p.476-486. Disponível em: https://www.scielo.br/j/motriz/a/8Fvd5vw5TtDk7xMt9Bttdnb/?format=pdf

 4. Castronovo, A. M.; Conforto, S.; Schmid, M.; Bibbo, D. (2013). How to assess performance in cycling: the multivariate nature of influencing factors and related indicators. Frontiers in Physiology. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/physiology/articles/10.3389/fphys.2013.00116/full

 5. Paton, C. D.; Hopkins, W. G. (2001). Tests of cycling performance. Sports Medicine, 31(7). Disponível em: https://link.springer.com/article/10.2165/00007256-200131070-00004

 6. Impellizzeri, F. M.; Marcora, S. M.; Rampinini, E.; Mognoni, P.; Sassi, A. (2005). Correlations between physiological variables and performance in high level cross country off road cyclists. British Journal of Sports Medicine, 39(10), 747-751. Disponível em: https://bjsm.bmj.com/content/39/10/747.short

7. Swart, J.; Holliday, W. (2019). Cycling biomechanics optimization—the (R)evolution of bicycle fitting. Current Sports Medicine Reports, 18(12). Disponível em: https://journals.lww.com/acsm-csmr/fulltext/2019/12000/cycling_biomechanics_optimization_the__r_.13.aspx

8. Phillips, K. E.; Healy, L. C.; Greig, M. J. (2020). Determinants of Cycling Performance: a Review of the Literature. PMC/NIH. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7271082/

9. Turpin, N. A.; Guével, A.; Durand, S.; Hug, F. (2020). Cycling Biomechanics and Its Relationship to Performance. Applied Sciences, 10(12), 4112. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-3417/10/12/4112

10. Li, J.; et al. (2025). Effects of crank length on cycling efficiency, sprint performance and subjective fatigue. PMC/NIH. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12060448/


A Propulsão na Natação: Do Teorema de Bernoulli à Força de Arrasto Propulsivo – Análise Fundamentada na Teoria Hidropropulsiva De Angelo (2025)

 

A compreensão da propulsão na natação é um campo complexo da biomecânica aquática, que evoluiu significativamente desde as primeiras teorias baseadas na física dos fluidos. Inicialmente, a explicação para o movimento do nadador no meio aquático foi fortemente influenciada pelo Teorema de Bernoulli e pelo conceito de Força de Sustentação (Lift), popularizado pelos estudos pioneiros de James Counsilman. Contudo, pesquisas subsequentes, notavelmente as de Ernest Maglischo, reorientaram o foco para a Força de Arrasto Propulsivo (Propulsive Drag), oferecendo uma visão mais completa e empiricamente sustentada.

O Teorema de Bernoulli e a Teoria da Sustentação (Lift)

O Teorema de Bernoulli, um princípio fundamental da hidrodinâmica, estabelece uma relação inversa entre a velocidade de um fluido e a pressão que ele exerce. Em termos simples, onde a velocidade do fluido é maior, a pressão é menor, e vice-versa.

 

"O Teorema de Bernoulli afirma que: a pressão de um fluido é reduzida sempre que a velocidade do fluxo é aumentada." [1]

Na natação, a aplicação desse teorema foi proposta para explicar a geração de força propulsiva através do movimento das mãos e braços do nadador, semelhante ao que ocorre com as asas de um avião ou as hélices de um barco.

A Contribuição de James Counsilman

James Counsilman (1920-2004), um renomado treinador e pesquisador de natação, foi um dos principais defensores da teoria da sustentação. Em seus estudos, especialmente a partir da década de 1960, ele sugeriu que os movimentos de "palmateio" (sculling) das mãos do nadador geravam uma força de sustentação (Lift) que impulsionava o corpo para a frente [2].

 

A teoria de Counsilman baseava-se na ideia de que, ao mover a mão em uma trajetória curva (o "S" subaquático), o nadador criava uma diferença de velocidade do fluxo de água nas superfícies superior e inferior da mão.

 

        Superfície de Alta Velocidade (Baixa Pressão): A água que percorre a parte externa da curva da mão se move mais rapidamente.

        Superfície de Baixa Velocidade (Alta Pressão): A água que percorre a parte interna da curva da mão se move mais lentamente.

 

Essa diferença de pressão resultaria em uma força perpendicular à direção do fluxo, a Força de Sustentação (Lift), que, quando orientada corretamente, contribuiria para a propulsão [3]. Essa teoria foi crucial para a evolução da técnica de nado, enfatizando a importância da trajetória curva da mão, conhecida como sculling ou "palmateio". Contudo, a eficácia dessa sustentação depende da manutenção de um fluxo laminar sobre a superfície da mão. O sculling bem executado busca o apoio nesse fluxo laminar, mais lento na palma, permitindo que o nadador gere força de sustentação e consiga, por exemplo, sustentar o corpo na vertical ou, no caso do deslocamento horizontal, ter um ponto de apoio estável para aplicar a força a partir dos ombros (princípio das alavancas). Em contraste, um movimento brusco de "empurrar a água para trás" transfere energia cinética, quebra o fluxo laminar e gera turbulência excessiva, resultando em perda de sustentação e propulsão ineficiente, como ocorre com alguém que está se afogando.

 

A Crítica e a Ênfase na Força de Arrasto Propulsivo por Ernest Maglischo

Apesar da influência inicial da teoria de Counsilman, a comunidade científica e técnica da natação começou a questionar a predominância da Força de Sustentação. Ernest Maglischo (n. 1941), outro influente treinador e autor, foi um dos principais responsáveis por essa reavaliação, argumentando que a Força de Arrasto Propulsivo (Propulsive Drag) é a força dominante na propulsão da natação [4].

 A Perspectiva de Ernest Maglischo

Maglischo, em suas obras como Swimming Fastest (2003), reconhece a existência da Força de Sustentação, mas a considera secundária em comparação com a Força de Arrasto [5]. Sua análise, apoiada por estudos mais avançados de biomecânica e visualização de fluidos, sugere que a propulsão é primariamente gerada pela ação de empurrar a água para trás, em conformidade com a Terceira Lei de Newton (Ação e Reação).

Força Propulsiva

Base Teórica

Contribuição na Propulsão

Força de Sustentação (Lift)

Teorema de Bernoulli

Força perpendicular ao fluxo, gerada pela diferença de pressão (velocidade) entre as superfícies da mão.

Força de Arrasto Propulsivo (Propulsive Drag)

Terceira Lei de Newton

Força paralela ao fluxo, gerada pelo empurrão da água para trás (ação) e a reação da água no sentido oposto (propulsão).

Lift, Drag e Alavancas de Força

Princípios biomecânicos e hidrodinâmico

Aplicação de força pela cintura escapular usando os braços, antebraço e mão para criar força de sustentação comprimindo o fluxo laminar d’água com vetor de deslocamento na projeção do eixo longitudinal do corpo.

 

Maglischo argumenta que a mão do nadador, ao se mover em uma trajetória que maximiza o contato com a água e a acelera para trás, cria uma alta pressão na sua superfície palmar, gerando a Força de Arrasto Propulsivo. A chave para a eficiência, segundo essa visão, é a capacidade de "agarrar" a água (fase de catch) e empurrá-la para trás de forma controlada, maximizando a reação da água (Arrasto Propulsivo) e minimizando a turbulência dissipativa.

 

"Embora nossa compreensão da propulsão na natação esteja longe de ser completa, acredito que a força de arrasto e as forças de arrasto que aceleram os nadadores para a frente serão denominadas arrasto propulsivo." [6]

A trajetória curva da mão (o "S" subaquático) não é vista por Maglischo como um mecanismo para gerar Lift, mas sim como uma forma de permitir que a mão se mova continuamente para trás, mantendo contato com "água não perturbada" e maximizando a Força de Arrasto Propulsivo ao longo de um percurso mais longo [7].

 

A Evolução do Entendimento Teoria da Hidropropulsão de Anjos

A teoria da propulsão na natação evoluiu de uma explicação centrada no Teorema de Bernoulli e na Força de Sustentação (Counsilman) para uma visão que enfatiza a Força de Arrasto Propulsivo (Maglischo).

 

Apesar da Força de Sustentação ser uma consequência física do movimento da mão na água (e, portanto, o Teorema de Bernoulli ser aplicável), a pesquisa moderna, influenciada por Maglischo, demonstrou que a maior parte da força propulsiva é gerada pela Força de Arrasto Propulsivo, ou seja, pela capacidade do nadador de aplicar força na água e acelerá-la para trás.

 

O legado de Counsilman reside em ter introduzido o conceito de que a mão não se move em linha reta, abrindo caminho para a análise hidrodinâmica e destacando o papel da Força de Sustentação. O trabalho de Maglischo, por sua vez, refinou esse entendimento, fornecendo a base para as técnicas de nado contemporâneas que priorizam a "pegada" (catch) e o "empurrão" da água para trás, maximizando o Arrasto Propulsivo. A técnica ideal de propulsão, portanto, busca um equilíbrio entre a Sustentação (Lift), gerada pelo sculling em fluxo laminar para obter apoio, e o Arrasto Propulsivo (Drag), gerado pela aplicação controlada de força contra a água, permitindo que o nadador utilize o corpo como um sistema de alavancas para o deslocamento horizontal eficiente.

 Entretanto os estudos hidrodinâmico, baseados nos princípios biomecânicos das alavancas segundo os Estudos de Anjos (2025) quanto ao uso das mãos (sculling) em que o nadador ao realizar o movimento da braçada nos nados, chamados de varredura por Maglischo, no caso do nado crawl, sendo a varredura para dentro, a primeira fase propulsiva e a varredura para cima, a segunda fase propulsiva, observando a movimentação da mão, antebraço e braço, o nadador não executa o "s", pois é uma visão simplista da analise em função corpo “sem deslocamento”. Contudo, a observação cinemática das mãos, antebraço e braço, mostram que eles se deslocam diagonalmente, após alcançar a posição mais profunda das mãos no nado crawl, iniciando o “agarre” (Fig 1), o nadador movimenta os braços no sentido da projeção da linha média do corpo, com a mão angulada próximo de 40º, apoiando-se no fluxo laminar. Mudando o vetor resultante, das mãos para o corpo pelo eixo longitudinal. A força é aplicada na articulação do ombro.  Com base no princípio das alavancas. O deslocamento é tão grande quanto a força aplicada e o arrasto hidrodinâmico, que é a força resistiva.

Em função da continuidade do movimento angular do ombro a segunda fase propulsiva da braçada no nado crawl, para cima, segundo Maglischo, ocorre também pela ênfase na rotação do tronco, que permite a cada grau de movimentação que a força gere o deslocamento horizontal do corpo. Grandes nadadores em função do deslocamento hidrodinâmico, não fazem a extensão do cotovelo pois ocasiona deslocamento vertical criando resistência de onda e de forma.

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Referências

[1] Swimming Science Bulletin. Part III - Propulsive Forces. Disponível em: https://coachsci.sdsu.edu/swim/bullets/forces3.htm [2] Morais, C. M. M. A Teoria Ascensional baseia-se no Teorema de Bernoulli. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/220687042.pdf [3] Corrêa, S. C. MECÂNICA DE FLUIDOS. Disponível em: https://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/remef/article/download/3637/2928/0 [4] Maglischo, E. W. Swimming Fastest. Human Kinetics, 2003.
[5] Maglischo, E. W.Swimming Even Faster. Mayfield Publishing Company, 1993.
[6] Maglischo, E. W.Swimming Fastest. Snippet: "Although our understanding of swimming propulsion is far from complete, I believe that the drag and drag forces that accelerate swimmers forward will be termed propulsive drag."
[7] Sport Science.Lift or drag in freestyle swimming?. Disponível em:
https://www.sportsci.org/news/biomech/skeptic.html