A Sinergia entre Velocidade Crítica e Training Impulse: Otimizando o Treinamento de Natação

 


            

           O treinamento esportivo moderno exige uma abordagem cada vez mais científica e personalizada. No universo da natação, onde a margem entre a vitória e a derrota é medida em milissegundos, a precisão na prescrição e no controle da carga de treino é fundamental. Dois conceitos se destacam como pilares dessa otimização: a Velocidade Crítica (VC) e o Training Impulse (TRIMP), especialmente em suas variações propostas por Lucias, Banister e Stagno.

Velocidade Crítica (VC): O Limiar Aeróbio do Nadador

               A Velocidade Crítica (VC), ou Critical Swim Speed (CSS), é definida como a velocidade mais alta que um nadador pode manter de forma contínua e estável, predominantemente através do metabolismo aeróbio, sem uma acumulação progressiva de lactato no sangue [1] [2]. Em termos práticos, a VC é frequentemente considerada o limiar aeróbio do nadador, sendo um excelente indicador da capacidade aeróbia e um critério objetivo para a prescrição e planificação de treinos [3].

 

Como a VC é Determinada?

               A determinação da VC é relativamente simples e não invasiva, sendo um dos seus grandes atrativos. O método mais comum envolve a realização de dois testes de nado máximo em distâncias diferentes, tipicamente 200 metros e 400 metros [4].

1.         Teste 1: Nado de 200 metros na velocidade máxima (T1).

2.         Teste 2: Nado de 400 metros na velocidade máxima (T2).

               A VC é calculada através de uma regressão linear, onde a distância (D) é plotada em função do tempo (T). A fórmula simplificada para o cálculo é:

               Onde D1 e D2 são as distâncias (200m e 400m) e T1 e T2 são os tempos correspondentes. O resultado é uma velocidade (m/s ou min/100m) que serve como um poderoso indicador da capacidade aeróbia do atleta [5].

 

Aplicação da VC no Treinamento

               A VC não é apenas um indicador de fitness, mas uma ferramenta de prescrição de treino. Ela estabelece a intensidade ideal para o treinamento de resistência de alta intensidade (limiar) [6].

           Treinos de Limiar: Sessões realizadas na velocidade da VC ou ligeiramente acima (por exemplo, 100% a 105% da VC) são extremamente eficazes para aumentar a capacidade aeróbia e a tolerância ao lactato.

           Controle de Ritmo: A VC fornece um ritmo de referência objetivo, permitindo que o nadador e o treinador monitorem a aderência à intensidade planejada.

 

Training Impulse (TRIMP): Quantificando a Carga Interna

               Enquanto a VC define a intensidade ideal, o Training Impulse (TRIMP) é a métrica utilizada para quantificar a carga interna total de uma sessão de treinamento [7]. Desenvolvido originalmente por Eric Banister, o TRIMP utiliza a frequência cardíaca (FC) para medir o estresse fisiológico imposto ao atleta, considerando a duração do exercício e a elevação da FC em relação à FC de repouso e à FC máxima [8].

 

As Variações de TRIMP: Lucias, Banister e Stagno

               O conceito de TRIMP evoluiu, dando origem a variações que buscam maior precisão ou simplicidade em diferentes contextos esportivos [9]:

VARIAÇÃO DO TRIMP

FOCO PRINCIPAL

METODOLOGIA DE CÁLCULO

APLICAÇÃO NA NATAÇÃO

TRIMP de Banister

Carga interna geral

Utiliza a duração do exercício e uma função exponencial da Frequência Cardíaca (FC) relativa.

Base para quantificação, mas a medição contínua da FC na água pode ser desafiadora.

TRIMP de Lucias

Zonas de intensidade

Simplifica o cálculo ao dividir o treino em três zonas de intensidade baseadas nos Limiares Ventilatórios (LV1 e LV2), atribuindo um coeficiente (1, 2 ou 3) a cada zona [10].

Útil para treinos de natação onde as zonas de esforço são bem definidas, como em séries de limiar e VO2máx.

TRIMP de Stagno

Esportes intermitentes

Adaptação do TRIMP de Banister, frequentemente utilizada em esportes com alta variabilidade de intensidade, mas que pode ser adaptada para nados intermitentes [11].

Menos comum na natação contínua, mas relevante para treinos com muitos starts e paradas ou em esportes aquáticos como o polo aquático.

               Para a natação, o TRIMP de Lucias é particularmente atraente devido à sua simplicidade e alinhamento com as zonas de treinamento baseadas em limiares fisiológicos. O método de Lucias atribui um peso (coeficiente) à duração do tempo gasto em cada zona de intensidade (baixa, moderada e alta), facilitando a quantificação da carga [10].

 

Elaboração de Sessões de Treinamento: A Integração VC e TRIMP

 

               A verdadeira potência desses conceitos reside na sua integração. A VC fornece o parâmetro de intensidade (o “quão rápido”), e o TRIMP fornece o parâmetro de volume/estresse (o “quão pesado”).

 

Exemplo Prático de Prescrição

               Suponha que um nadador tenha uma VC de 1:30/100m. O treinador deseja prescrever uma sessão de limiar aeróbio com uma carga interna específica (TRIMP alvo).

Componente da Sessão

Intensidade (Baseada na VC)

Duração/Volume

Carga Interna Estimada (TRIMP de Lucias)

Aquecimento

Leve (abaixo de 90% da VC)

15 minutos

Baixa (Zona 1)

Série Principal

Limiar (100% a 105% da VC)

8 x 100m a 1:28/100m, com 15s de descanso

Alta (Zona 3)

Volta à Calma

Leve

10 minutos

Baixa (Zona 1)

              

               Ao planejar o TRIMP alvo para a semana ou o microciclo, o treinador pode manipular o volume, a intensidade e a densidade das séries (tempo de descanso) para atingir a carga desejada. Isso garante que o estresse fisiológico seja o suficiente para gerar adaptação, mas não excessivo a ponto de causar overtraining.

Conclusão

               A combinação da Velocidade Crítica como um marcador de intensidade preciso e objetivo, e do Training Impulse (em suas variações como a de Lucias) como um quantificador robusto da carga interna, oferece aos treinadores de natação uma metodologia poderosa para otimizar o desempenho. Ao mover o treinamento da intuição para a ciência, é possível maximizar as adaptações fisiológicas, gerenciar o risco de lesões e, em última análise, levar o nadador a atingir seu potencial máximo na piscina.


Referências

[1] Garmin. O Que é Velocidade Crítica de Natação? Disponível em: https://support.garmin.com/pt-BR/?faq=h56ydwZxU8A7oi2OSh0y66 [2] Franken, M. (2011). Velocidade crítica em natação: fundamentos e aplicação. Motriz, 17(2), 336-343. Disponível em: https://www.scielo.br/j/motriz/a/X69wQBKB4jptYf5wjr5hQCd/ [3] Sousa, J. (2008). Velocidade crítica. Repositório Aberto da Universidade do Porto. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/14555/2/38577.pdf [4] MyProCoach. Simple CSS Calculator with Swim Training Zones. Disponível em: https://www.myprocoach.net/calculators/critical-swim-speed/ [5] Raimundo, J. A. G. (2018). Velocidade crítica e índices de capacidade aeróbia na natação. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2018/04/882917/velocidade-critica-e-indices-de-capacidade-aerobia-na-natacao-u_Gvvrk4p.pdf [6] TrainingPeaks. How to Use Critical Swim Speed Training. Disponível em: https://www.trainingpeaks.com/blog/how-to-use-critical-swim-speed-training/ [7] Training Impulse. Banisters TRIMP. Disponível em: https://www.trainingimpulse.com/banisters-trimp-0 [8] Banister, E. W. (1991). Modeling training: acute and chronic responses. Medicine and Science in Sports and Exercise, 23(9), 1055-1062. [9] Milanez, V. F. (2012). Aplicação de diferentes métodos de quantificação de carga de treinamento. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, 18(3), 177-181. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbme/a/kd8RLyCwnm3KNM5SbnTdg4B/?lang=en [10] Training Impulse. Lucias TRIMP. Disponível em: https://www.trainingimpulse.com/lucias-trimp-0 [11] Stagno, K. M., Thatcher, R., & Van Someren, K. A. (2007). A modified TRIMP to quantify the training load of field hockey players. Journal of Sports Sciences, 25(8), 861-867. Disponível em: https://www.trainingimpulse.com/stagnos-trimp