TRIMP (Training Impulse) e o TSS (Training Stress Score)

 

 


Este manual tem como objetivo detalhar duas das métricas mais importantes para a quantificação da carga de treinamento em esportes de resistência: o TRIMP (Training Impulse) e o TSS (Training Stress Score). Ambas as métricas buscam fornecer uma medida objetiva do estresse fisiológico imposto ao atleta durante uma sessão de exercícios, auxiliando no monitoramento, planejamento e otimização do treinamento.


TRIMP (Training Impulse)

O TRIMP, ou Impulso de Treinamento, é uma métrica que quantifica a carga de treinamento de uma sessão de exercícios, integrando a DURAÇÃO e a INTENSIDADE do treino para fornecer um valor numérico único que representa o estresse fisiológico. Desenvolvido pelo fisiologista esportivo Eric Banister, o TRIMP tem como base principal a frequência cardíaca.

 

MODELOS DE CÁLCULO DO TRIMP

Existem diferentes modelos matemáticos para calcular o TRIMP, cada um com suas próprias vantagens e aplicações:

 

1. TRIMP de Banister (O Modelo Original)

Proposto por Eric Banister em 1991, este modelo é altamente individualizado, levando em conta a resposta da frequência cardíaca de cada atleta e ponderando a intensidade de forma exponencial. Isso significa que o tempo gasto em frequências cardíacas mais altas contribui muito mais para a pontuação final. O é altamente individualizado, reflete bem o estresse metabólico. Mas Requer conhecimento preciso da FC de repouso e máxima e o cálculo complexo.

Fórmula:

TRIMP = Duração (min) × ΔFCr × Fator de Ponderação (y)

Onde:

ü  Duração: Tempo total do treino em minutos.

ü  ΔFCr (Delta FC ratio): Fração da sua “reserva de frequência cardíaca” utilizada durante o treino.

ü  ΔFCr = (FCmédia do treino - FCrepouso) / (FCmáxima - FCrepouso) 

ü  Fator de Ponderação (y): Coeficiente que torna a relação exponencial, variando por sexo: *Para homens: y = 0.64 × e^(1.92 × ΔFCr) *Para mulheres: y = 0.86 × e^(1.67 × ΔFCr)

 

2. TRIMP Zonal (Modelo de Edwards)

O modelo proposto por Edwards (1993) é mais prático, pois simplifica o cálculo dividindo a INTENSIDADE em cinco zonas de frequência cardíaca, onde o TEMPO gasto em cada zona é multiplicado por um fator simples. Muito fácil de calcular, intuitivo e compatível com a maioria dos dispositivos. O modelo é menos preciso que o modelo de Banister, pois trata todos os esforços dentro de uma mesma zona com o mesmo peso.

 

Fórmula:

TRIMP = (TZ1 × 1) + (TZ2 × 2) + (TZ3 × 3) + (TZ4 × 4) + (TZ5 × 5)

Onde:

Ø  T_Zx: Tempo em minutos gasto na Zona “x”.

 As Zonas são percentuais da sua Frequência Cardíaca Máxima (FCmáx):

ü  Zona 1 (Z1): 50–60% da FCmáx

ü  Zona 2 (Z2): 60–70% da FCmáx

ü  Zona 3 (Z3): 70–80% da FCmáx

ü  Zona 4 (Z4): 80–90% da FCmáx

ü  Zona 5 (Z5): 90–100% da FCmáx

 

Exemplo Prático (TRIMP de Edwards):

Cenário: Um corredor com  FCmáx = 190 bpm. Treino de 60 minutos.

Zonas de FC: * Z1 (50-60%): 95-114 bpm * Z2 (60-70%): 114-133 bpm * Z3 (70-80%): 133-152 bpm * Z4 (80-90%): 152-171 bpm * Z5 (90-100%): 171-190 bpm

Tempo Gasto em Cada Zona: * Zona 1: 10 minutos * Zona 2: 35 minutos * Zona 3: 0 minutos * Zona 4: 15 minutos * Zona 5: 0 minutos

Cálculo:

TRIMP = (10 × 1) + (35 × 2) + (0 × 3) + (15 × 4) + (0 × 5) 

TRIMP = 10 + 70 + 0 + 60 + 0 

TRIMP = 140

O treino gerou 140 TRIMP.

 

3. TRIMP de Lucia (Específico para Limiares)

Este modelo refina o conceito zonal ao focar em três zonas delimitadas por limiares fisiológicos (Limiar Ventilatório 1 - LV1 e Limiar Ventilatório 2 - LV2), que são determinados em testes de esforço em laboratório. Este modelo é mais preciso fisiologicamente, reflete melhor a transição entre os sistemas de produção de energia.  Requer testes de ergoespirometria em laboratório, o que é caro e pouco acessível.

 

Fórmula:

TRIMP = (T_Z1 × 1) + (T_Z2 × 2) + (T_Z3 × 3)

Onde: * Zona 1 (Z1): Intensidade abaixo do LV1. * Zona 2 (Z2): Intensidade entre o LV1 e o LV2. * Zona 3 (Z3): Intensidade acima do LV2.

 

TSS (Training Stress Score)

O TSS, ou Pontuação de Estresse de Treinamento, é uma métrica desenvolvida por Andrew Coggan e popularizada pela plataforma TrainingPeaks. Assim como o TRIMP, o TSS quantifica a carga de treinamento, mas utiliza a potência como principal medida de intensidade. É o padrão-ouro em esportes baseados em potência, como o ciclismo.

Conceitos Fundamentais do TSS

 

Potência Normalizada (Normalized Power® - NP®)

A NP é uma estimativa do custo fisiológico real de um treino, levando em conta as variações de intensidade. Ela representa a potência que você teria mantido se o seu esforço tivesse sido perfeitamente constante durante todo o treino. Diferente da potência média, a NP pondera os picos de esforço, dando a eles um peso desproporcionalmente maior, o que reflete melhor o estresse metabólico. A Potência Normalizada é uma métrica que busca fornecer uma estimativa mais precisa da intensidade fisiológica real de um treino do que a simples potência média. Enquanto a potência média pode ser diminuída por períodos de baixa potência como descidas ou paradas, a Potência Normalizada leva em conta a variabilidade do esforço e dá mais peso aos picos de alta intensidade, que são metabolicamente mais custosos.

O cálculo da Potência Normalizada (NP) é um processo de quatro etapas projetado para refletir a demanda fisiológica real de um treino, suavizando as flutuações de potência, mas dando mais importância aos períodos de alta intensidade.

Calculo:

  1. Cálculo da Média Móvel de 30 segundos: Primeiro, calcula-se uma média móvel de 30 segundos para todos os dados de potência do treino. Isso significa que, para cada ponto de dados, é calculada a média da potência daquele ponto e dos 29 segundos anteriores.

 

  1. Elevar os Valores à Quarta Potência: Cada valor dessa média móvel de 30 segundos é então elevado à quarta potência. Este passo é crucial, pois ele amplifica significativamente o impacto dos picos de alta potência e diminui a importância dos períodos de baixa potência.

 

  1. Calcular a Média dos Valores Elevados: Em seguida, é calculada a média de todos os valores que foram elevados à quarta potência no passo anterior.

 

  1. Tirar a Raiz Quarta da Média: Por fim, a raiz quarta dessa média é calculada. O resultado final é a sua Potência Normalizada (NP) para o treino.

Em resumo, a fórmula é expressa como:

NP = ⁴√ ( Média ( (Média Móvel de 30s da Potência)⁴ ) )

Este método garante que a NP seja sempre igual ou superior à potência média. A única situação em que a Potência Normalizada seria igual à potência média é se a potência fosse mantida perfeitamente constante durante todo o treino, sem qualquer variação.

 

Fator de Intensidade (Intensity Factor® - IF®)

O IF mede o quão intenso o treino foi em relação à capacidade atual do atleta (seu FTP - Functional Threshold Power). É a relação entre a Potência Normalizada (NP) do treino e o FTP do atleta.

Fórmula:

IF = NP / FTP

Cálculo do TSS

O cálculo do TSS é baseado na Potência Normalizada (NP), no Fator de Intensidade (IF) e na duração do treino.

FÓRMULA COMPLETA

TSS = [(Duração em segundos × NP × IF) / (FTP × 3600)] × 100

Onde:

ü  Duração em segundos: Tempo total do treino em segundos.

ü  NP: Potência Normalizada (watts).

ü  IF: Fator de Intensidade (adimensional).

ü  FTP: Functional Threshold Power (watts).

ü  3600: Constante para converter segundos em horas (segundos em uma hora).

Fórmula Simplificada:

TSS = Duração (em horas) × IF² × 100

Ambas as fórmulas produzem o mesmo resultado, sendo a segunda uma reorganização matemática da primeira.

 

Exemplo Prático (TSS):

Cenário: Ciclista com FTP = 250 watts. Treino de 90 minutos (1,5 horas).

Dados do Treino: 

 Duração: 90 minutos (5400 segundos) * Normalized Power (NP): 235 watts

 

Cálculo do IF:

IF = NP / FTP = 235 / 250 = 0,94

 

Cálculo do TSS (Fórmula Simplificada):

TSS = Duração (em horas) × IF² × 100

 

TSS = 1,5 (horas) × (0,94)² × 100 

TSS = 1,5 × 0.8836 × 100 

TSS = 132,54 ≈ 133

Ø  O treino gerou 133 TSS.

 

Cálculo do TSS (Fórmula Completa):

TSS = [(5400 × 235 × 0,94) / (250 × 3600)] × 100 

TSS = [1.192.860 / 900.000] × 100 

TSS = 1.3254 × 100 TSS = 132,54 ≈ 133

O resultado é o mesmo, 133 TSS.

 

Comparação TRIMP vs. TSS

Característica

TRIMP (Training Impulse)

TSS (Training Stress Score)

Base de Cálculo

Frequência Cardíaca

Potência

O que Mede

resposta fisiológica do corpo ao estresse (o quão “caro” o treino foi para o sistema cardiovascular).

trabalho mecânico realizado (a carga de trabalho externa que foi produzida).

Objetividade

Mede a resposta fisiológica ao esforço. Pode ser influenciado por fatores externos (calor, estresse, cafeína).

Mede o trabalho mecânico realizado. É mais objetivo e menos suscetível a variáveis externas.

Esportes Comuns

Corrida, natação, esportes coletivos (onde a potência é difícil de medir).

Ciclismo, corrida com medidor de potência.

Vantagem Principal

Acessível (basta um monitor cardíaco) e reflete o estresse cardiovascular total.

Precisão e consistência na medição da carga de treino.

 

Exemplo de Comparação (TRIMP de Lucia vs. TSS)

Cenário: Ciclista, FTP = 300 watts. LV1 = 140 bpm, LV2 = 165 bpm. Treino de 75 minutos (Sweet Spot).

Dados do Treino: 

Ø  NP: 282 watts  

Ø  Tempo abaixo de 140 bpm (Z1): 20 minutos

Ø  Tempo entre 140 e 165 bpm (Z2): 50 minutos

Ø  Tempo acima de 165 bpm (Z3): 5 minutos

 

Cálculo do TRIMP de Lucia:

TRIMP = (20 × 1) + (50 × 2) + (5 × 3) 

TRIMP = 20 + 100 + 15 

TRIMP = 135

 

Cálculo do TSS:

IF = NP / FTP = 282 / 300 = 0,94 

TSS = 1,25 (horas) × (0,94)² × 100 

TSS = 1,25 × 0,8836 × 100 

TSS = 110,45 ≈ 110

 

Neste exemplo, o TRIMP de Lucia (135) foi mais alto que o TSS (110). Isso pode indicar um “desacoplamento cardíaco”, onde a frequência cardíaca aumenta progressivamente para manter a mesma potência devido a fatores como fadiga, desidratação ou calor. O TSS mede o estímulo (trabalho externo), enquanto o TRIMP mede a resposta fisiológica (custo interno). Usar ambos fornece uma visão mais completa do estresse do treinamento.

O TRIMP e TSS são ferramentas poderosas para atletas e treinadores. Enquanto o TRIMP, baseado na frequência cardíaca, é mais acessível e reflete o estresse cardiovascular, o TSS, baseado na potência, oferece uma medida mais objetiva do trabalho mecânico realizado. A escolha da métrica depende do esporte, da disponibilidade de equipamentos e do nível de detalhe desejado no monitoramento da carga de treinamento. O uso combinado de ambas as métricas, quando possível, oferece a visão mais completa do impacto do treinamento no atleta.