APROVAÇÃO NO TAF: SEU GUIA DEFINITIVO PARA AS FORÇAS ARMADAS
Desvendando a Fisiologia do Exercício – Limiares e Consumo de Oxigênio
Na
prescrição do treinamento de alto rendimento, termos como "Limiar" e
"VO2" são onipresentes, mas frequentemente mal compreendidos. Para
otimizar a performance, é crucial diferenciar as respostas metabólicas e
ventilatórias.
Os Limiares
Ventilatórios (LV1 e LV2)
Diferente
dos métodos baseados apenas em frequência cardíaca, os limiares ventilatórios
descrevem a resposta fisiológica interna do organismo ao esforço progressivo.
O Limiar
Ventilatório 1 (LV1), também conhecido como limiar aeróbio. É o ponto
onde a ventilação começa a aumentar de forma não linear em relação ao consumo
de oxigênio (VO2max). Fisiologicamente, marca o início do
acúmulo de lactato no sangue, embora o corpo ainda consiga removê-lo com
eficiência. É a zona de "endurance fundamental", onde a conversa
ainda é possível. O Limiar Ventilatório 2 (LV2), frequentemente
chamado de limiar anaeróbio ou Ponto de Compensação Respiratória (PCR). Aqui,
ocorre um aumento abrupto e desproporcional da ventilação em uma tentativa do
sistema respiratório de compensar a acidose metabólica (queda do pH sanguíneo).
Acima deste ponto, o exercício torna-se insustentável a longo prazo devido à
fadiga precoce.
VO2 max vs.
VO2 Pico ou Peak: A Distinção Científica
Embora usados
como sinônimos, a literatura científica estabelece uma diferença clara O VO2max
Representa o teto fisiológico do sistema de transporte e utilização de
oxigênio. O critério "padrão-ouro" para sua identificação é o platô:
quando a carga de trabalho aumenta, mas o consumo de oxigênio estabiliza. É a
medida da capacidade máxima do "motor" aeróbio. O VO2peak
é o maior valor de consumo de oxigênio atingido em um teste de esforço, mas
sem a evidência de um platô. Isso pode ocorrer por fadiga muscular local, falta
de motivação ou protocolos de teste que não levaram o indivíduo ao seu limite
biológico real.
Em atletas de
elite, o VO2 peak costuma ser o próprio VO2 max
. Em populações clínicas ou iniciantes, o teste geralmente termina no
"pico" antes que o platô seja atingido.
Lactato como Marcador, não Causa de Fadiga
Historicamente, acreditou-se que a
produção de lactato gerava ácido lático, que se dissociava em lactato e H+,
causando a queda do pH. Hoje, sabemos que a realidade bioquímica é outra.
A redução da
velocidade da glicólise tem origem metabólica em etapas específicas, estudos
mostram que a redução do “pH-acidez”, não é suficiente para causar danos
metabólicos. A redução da glicólise anaeróbia afeta toda a produção de energia pela
via aeróbia, quando a demanda por energia é altíssima para produzir Adenosina
Trifosfato (ATP), o Gliceraldeído-3-Fosfato, Etapa 5/6, é oxidado
pela enzima gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase que requer Nicotinamida
Adenina Dinucleotídeo (NAD+) para
aceitar elétrons do G3F. Se o fluxo glicolítico é muito rápido, a
disponibilidade de NAD+ torna-se o gargalo. A solução para o processo
não parar instantaneamente é o Lactato, para que a glicólise não pare pela falta
de NAD+ a célula utiliza o piruvato. A enzima Lactato
Desidrogenase (LDH) reduz o piruvato a lactato, e nesse processo, oxida
o NADH de volta para NAD+.
A formação de
lactato é, na verdade, uma reação que consome um próton livre H+
e regenera o NAD+. Portanto, a produção de lactato atrasa a fadiga
muscular, em vez de causá-la.
O Índice de Variabilidade (VI) no Ciclismo do Triathlon
Definição e Metodologia de Cálculo
O Índice de Variabilidade (VI) é uma métrica que
quantifica a consistência da potência de saída de um ciclista durante um
determinado período. Ele é definido como a razão entre a Potência Normalizada
(NP) e a Potência Média (AP) [2].
Fórmula de Cálculo
VI
= Potência Normalizada (NP) / Potência Média (AP)
Onde:
•
Potência Média (AP - Average
Power): Representa a média aritmética simples de todos os valores de
potência registrados durante o segmento de ciclismo. Embora seja uma medida
direta, a AP não reflete adequadamente o custo fisiológico de esforços
intermitentes, que são comuns no ciclismo de triathlon.
•
Potência Normalizada (NP -
Normalized Power): É uma estimativa da potência que um atleta poderia
ter mantido se o esforço fosse perfeitamente constante, mas que resultaria no
mesmo custo fisiológico total de um esforço variável. A NP é calculada
utilizando um algoritmo que pondera os picos de potência de forma não linear,
reconhecendo que esforços acima do limiar funcional são metabolicamente mais
custosos do que esforços abaixo dele [3]. Assim, a NP oferece uma representação
mais precisa da demanda fisiológica real imposta ao atleta.
Um VI de 1.0 indica um esforço perfeitamente constante,
onde a NP é igual à AP. Valores de VI acima de 1.0 denotam uma maior
variabilidade na potência de saída, indicando flutuações no esforço que podem
ter implicações significativas para a economia de energia e o desempenho
subsequente na corrida.
Valores de Referência e Aplicações Práticas
Os valores ideais de VI variam consideravelmente
dependendo da distância da prova, do perfil do percurso e da estratégia de
corrida. A tabela a seguir apresenta valores de referência para diferentes
distâncias de triathlon, baseados em recomendações de especialistas como Joe
Friel e análises de dados de desempenho [4] [5].
|
DISTÂNCIA |
VI ALVO (IDEAL) |
CONTEXTO E IMPLICAÇÕES |
|
Ironman
(Full) |
< 1.05 |
Em provas de
longa distância como o Ironman, manter um VI baixo é crucial para preservar
as reservas de glicogênio e minimizar a fadiga muscular. Um VI elevado
(>1.05) pode indicar um gasto energético excessivo no ciclismo,
comprometendo severamente o desempenho na maratona subsequente [6]. |
|
Ironman
70.3 |
1.05 - 1.08 |
Devido à
menor duração em comparação com o Ironman completo, um VI ligeiramente mais
alto pode ser tolerável. No entanto, a gestão da potência ainda é fundamental
para garantir uma transição eficiente para a corrida e um bom desempenho na
meia maratona. |
|
Olímpico /Sprint |
1.10 - 1.20+ |
Em provas
mais curtas, especialmente aquelas que permitem o vácuo (drafting) ou que
apresentam percursos técnicos com muitas curvas e subidas/descidas, a
variabilidade de potência é inerente. Acelerações e desacelerações são
frequentes, resultando em VIs naturalmente mais altos. Nesses casos, um VI
elevado não é necessariamente um indicador de má gestão, mas sim uma
característica da dinâmica da prova [7]. |
Impacto Fisiológico e Desempenho na Corrida
A variabilidade excessiva na potência de ciclismo,
refletida por um VI alto, tem um impacto direto na fisiologia do atleta e,
consequentemente, no desempenho na corrida. Esforços intermitentes e picos de
potência, especialmente aqueles acima do Limiar de Potência Funcional (FTP),
levam a um maior recrutamento de fibras musculares de contração rápida, que são
mais suscetíveis à fadiga e dependem mais do metabolismo anaeróbio [8]. Isso
resulta em:
•
Maior Consumo de Glicogênio:
Picos de potência exigem uma demanda energética imediata, que é suprida
predominantemente pela quebra de glicogênio. Um VI alto acelera o esgotamento
das reservas de glicogênio, essenciais para as etapas finais da prova,
especialmente a corrida.
•
Acúmulo de Lactato:
Esforços intensos e repetidos acima do limiar anaeróbio resultam em um acúmulo
significativo de lactato e íons de hidrogênio, o que contribui para a acidose
muscular e a fadiga precoce.
•
Degradação da Economia de Corrida:
A fadiga acumulada no ciclismo devido a um VI elevado pode comprometer a
biomecânica da corrida, levando a uma diminuição da economia de corrida e,
consequentemente, a um ritmo mais lento e maior percepção de esforço [9].
Estudos têm demonstrado que triatletas com maior variabilidade de potência no
ciclismo podem apresentar uma degradação mais acentuada na técnica de corrida e
na velocidade após a transição [10].
Fatores como subidas íngremes, ventos fortes, curvas
técnicas e a necessidade de manter o vácuo em grupos (quando permitido) são
contribuintes comuns para um VI elevado. Uma gestão eficaz da marcha e a
manutenção de uma cadência consistente podem ajudar a mitigar essas flutuações.
Conclusão
O Índice de Variabilidade (VI) é uma métrica valiosa para
triatletas e treinadores, fornecendo insights sobre a eficiência da
distribuição de potência no segmento de ciclismo. Embora um VI alto possa ser
aceitável ou até mesmo inevitável em provas curtas e técnicas, em eventos de
longa distância como o Ironman, a minimização da variabilidade de potência é
fundamental para otimizar a economia de energia e garantir um desempenho
robusto na corrida subsequente. A compreensão e a aplicação estratégica do VI
permitem aos atletas refinar suas táticas de pacing, conservar recursos
fisiológicos e, em última instância, alcançar seu potencial máximo no
triathlon.
Referências
[1] Cejuela, R., Arévalo-Chico, H., & Sellés-Pérez, S.
(2024). Power Profile during
Cycling in World Triathlon Series and Olympic Games. J Sports
Sci Med, 23(1), 25-33. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10915604/ [2] TrainingPeaks. (n.d.). Variability Index (VI) – TrainingPeaks Help Center.
Disponível em: https://help.trainingpeaks.com/hc/en-us/articles/204072094-ATP-Strength-Phase-Workouts(Nota:
O link original para a definição de VI no TrainingPeaks não foi encontrado,
este é um link relacionado que menciona o VI e Joe Friel).
[3] Friel, J. (2014).The Triathlete's Training Bible: The World's Most Comprehensive
Training Guide. VeloPress.
[4] Friel, J. (2008, October 25).The Most Common
Ironman Mistake. Joe Friel's Blog. Disponível em: http://www.trainingbible.com/joesblog/2008/10/most-common-ironman-mistake.html
[5] Triathlete. (2025, June 25). Dear Coach: What Is VI?.
Disponível em: https://www.triathlete.com/training/dear-coach-what-is-vi/
[6] Suriano, R., Vercruyssen, F., & Bishop, D. (2007). Variable power output during cycling improves
subsequent treadmill run time to exhaustion. Journal of
Science and Medicine in Sport, 10(2), 107-113. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1440244006001496 [7] Olcina, G., et al. (2019).
Effects of Cycling on
Subsequent Running Performance in Elite Triathletes. Frontiers
in Physiology, 10, 657. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6572577/ [8] Bonacci, J., et al. (2013).
Rating of perceived exertion
during cycling is associated with subsequent running economy in triathletes. Journal of Science and Medicine in Sport, 16(2),
170-174. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1440244012000643 [9] Espejo, R., et al. (2025).
The influence of cycling on
subsequent running performance. Frontiers in Sports and Active
Living, 7, 11972242. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11972242/ [10] Cejuela, R., et al. (2024). Power Profile during Cycling in
World Triathlon Series and Olympic Games. J Sports Sci Med,
23(1), 25-33. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10915604/
A Sinergia entre Velocidade Crítica e Training Impulse: Otimizando o Treinamento de Natação
Velocidade Crítica (VC): O Limiar Aeróbio do
Nadador
A Velocidade Crítica
(VC), ou Critical Swim Speed (CSS), é
definida como a velocidade mais alta que um nadador pode manter de forma
contínua e estável, predominantemente através do metabolismo aeróbio, sem uma
acumulação progressiva de lactato no sangue [1] [2]. Em termos práticos, a VC é
frequentemente considerada o limiar
aeróbio do nadador, sendo um excelente indicador da capacidade aeróbia e um
critério objetivo para a prescrição e planificação de treinos [3].
Como a VC é Determinada?
A determinação da VC
é relativamente simples e não invasiva, sendo um dos seus grandes atrativos. O
método mais comum envolve a realização de dois testes de nado máximo em
distâncias diferentes, tipicamente 200 metros e 400 metros [4].
1.
Teste 1: Nado de 200 metros na velocidade máxima (T1).
2.
Teste 2: Nado de 400 metros na velocidade máxima (T2).
A VC é calculada
através de uma regressão linear, onde a distância (D) é plotada em função do
tempo (T). A fórmula simplificada para o cálculo é:
Onde D1 e D2 são as distâncias (200m e 400m) e T1 e T2 são os tempos correspondentes. O
resultado é uma velocidade (m/s ou min/100m) que serve como um poderoso
indicador da capacidade aeróbia do atleta [5].
Aplicação da VC no Treinamento
A VC não é apenas um
indicador de fitness, mas uma
ferramenta de prescrição de treino. Ela estabelece a intensidade ideal para o
treinamento de resistência de alta intensidade (limiar) [6].
•
Treinos de Limiar: Sessões realizadas na velocidade da VC ou
ligeiramente acima (por exemplo, 100% a 105% da VC) são extremamente eficazes
para aumentar a capacidade aeróbia e a tolerância ao lactato.
•
Controle de Ritmo: A VC fornece um ritmo de referência objetivo,
permitindo que o nadador e o treinador monitorem a aderência à intensidade
planejada.
Training Impulse (TRIMP): Quantificando a Carga
Interna
Enquanto a VC define
a intensidade ideal, o Training Impulse
(TRIMP) é a métrica utilizada para quantificar a carga interna total de uma sessão de treinamento [7]. Desenvolvido
originalmente por Eric Banister, o
TRIMP utiliza a frequência cardíaca (FC) para medir o estresse fisiológico
imposto ao atleta, considerando a duração do exercício e a elevação da FC em
relação à FC de repouso e à FC máxima [8].
As Variações de TRIMP: Lucias, Banister e
Stagno
O conceito de TRIMP
evoluiu, dando origem a variações que buscam maior precisão ou simplicidade em
diferentes contextos esportivos [9]:
|
VARIAÇÃO DO TRIMP |
FOCO PRINCIPAL |
METODOLOGIA DE CÁLCULO |
APLICAÇÃO NA NATAÇÃO |
|
TRIMP
de Banister |
Carga interna geral |
Utiliza a duração do
exercício e uma função exponencial da Frequência Cardíaca (FC) relativa. |
Base para
quantificação, mas a medição contínua da FC na água pode ser desafiadora. |
|
TRIMP
de Lucias |
Zonas de intensidade |
Simplifica o cálculo
ao dividir o treino em três zonas de intensidade baseadas nos Limiares
Ventilatórios (LV1 e LV2), atribuindo um coeficiente (1, 2 ou 3) a cada zona
[10]. |
Útil para treinos de
natação onde as zonas de esforço são bem definidas, como em séries de limiar
e VO2máx. |
|
TRIMP
de Stagno |
Esportes intermitentes |
Adaptação do TRIMP de
Banister, frequentemente utilizada em esportes com alta variabilidade de
intensidade, mas que pode ser adaptada para nados intermitentes [11]. |
Menos comum na natação
contínua, mas relevante para treinos com muitos starts e paradas ou em esportes aquáticos como o polo aquático. |
Para a natação, o TRIMP de Lucias é particularmente
atraente devido à sua simplicidade e alinhamento com as zonas de treinamento
baseadas em limiares fisiológicos. O método de Lucias atribui um peso
(coeficiente) à duração do tempo gasto em cada zona de intensidade (baixa,
moderada e alta), facilitando a quantificação da carga [10].
Elaboração de Sessões de Treinamento: A
Integração VC e TRIMP
A verdadeira
potência desses conceitos reside na sua integração. A VC fornece o parâmetro de intensidade (o “quão
rápido”), e o TRIMP fornece o parâmetro
de volume/estresse (o “quão pesado”).
Exemplo Prático de Prescrição
Suponha que um
nadador tenha uma VC de 1:30/100m. O
treinador deseja prescrever uma sessão de limiar aeróbio com uma carga interna
específica (TRIMP alvo).
|
Componente da Sessão |
Intensidade (Baseada na VC) |
Duração/Volume |
Carga Interna Estimada (TRIMP
de Lucias) |
|
Aquecimento |
Leve (abaixo de 90% da
VC) |
15 minutos |
Baixa (Zona 1) |
|
Série
Principal |
Limiar (100% a 105% da VC) |
8 x 100m a 1:28/100m,
com 15s de descanso |
Alta (Zona 3) |
|
Volta
à Calma |
Leve |
10 minutos |
Baixa (Zona 1) |
Ao planejar o TRIMP
alvo para a semana ou o microciclo, o treinador pode manipular o volume, a
intensidade e a densidade das séries (tempo de descanso) para atingir a carga
desejada. Isso garante que o estresse fisiológico seja o suficiente para gerar
adaptação, mas não excessivo a ponto de causar overtraining.
Conclusão
A combinação da Velocidade Crítica como um marcador de
intensidade preciso e objetivo, e do Training
Impulse (em suas variações como a de Lucias) como um quantificador robusto
da carga interna, oferece aos treinadores de natação uma metodologia poderosa
para otimizar o desempenho. Ao mover o treinamento da intuição para a ciência,
é possível maximizar as adaptações fisiológicas, gerenciar o risco de lesões e,
em última análise, levar o nadador a atingir seu potencial máximo na piscina.
Referências
[1] Garmin. O Que
é Velocidade Crítica de Natação? Disponível em: https://support.garmin.com/pt-BR/?faq=h56ydwZxU8A7oi2OSh0y66 [2] Franken, M. (2011). Velocidade crítica em
natação: fundamentos e aplicação. Motriz,
17(2), 336-343. Disponível em: https://www.scielo.br/j/motriz/a/X69wQBKB4jptYf5wjr5hQCd/ [3] Sousa, J. (2008). Velocidade crítica.
Repositório Aberto da Universidade do Porto. Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/14555/2/38577.pdf [4] MyProCoach. Simple CSS Calculator with
Swim Training Zones. Disponível em: https://www.myprocoach.net/calculators/critical-swim-speed/ [5] Raimundo, J. A. G. (2018). Velocidade
crítica e índices de capacidade aeróbia na natação. Disponível em: https://docs.bvsalud.org/biblioref/2018/04/882917/velocidade-critica-e-indices-de-capacidade-aerobia-na-natacao-u_Gvvrk4p.pdf [6] TrainingPeaks. How
to Use Critical Swim Speed Training. Disponível em: https://www.trainingpeaks.com/blog/how-to-use-critical-swim-speed-training/
[7] Training Impulse. Banisters
TRIMP. Disponível em: https://www.trainingimpulse.com/banisters-trimp-0 [8] Banister, E. W. (1991). Modeling training: acute and chronic responses. Medicine and Science in Sports and Exercise, 23(9), 1055-1062. [9] Milanez, V. F. (2012). Aplicação de
diferentes métodos de quantificação de carga de treinamento. Revista Brasileira de Medicina do Esporte,
18(3), 177-181. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbme/a/kd8RLyCwnm3KNM5SbnTdg4B/?lang=en [10] Training Impulse. Lucias TRIMP. Disponível em: https://www.trainingimpulse.com/lucias-trimp-0
[11] Stagno, K. M., Thatcher, R., & Van Someren, K. A. (2007). A modified
TRIMP to quantify the training load of field hockey players. Journal of Sports Sciences, 25(8),
861-867. Disponível em: https://www.trainingimpulse.com/stagnos-trimp
TRIMP (Training Impulse) e o TSS (Training Stress Score)
Este manual tem como objetivo detalhar
duas das métricas mais importantes para a quantificação da carga de treinamento
em esportes de resistência: o TRIMP (Training Impulse) e
o TSS (Training Stress Score). Ambas as métricas buscam fornecer
uma medida objetiva do estresse fisiológico imposto ao atleta durante uma
sessão de exercícios, auxiliando no monitoramento, planejamento e otimização do
treinamento.
TRIMP
(Training Impulse)
O TRIMP, ou Impulso de
Treinamento, é uma métrica que quantifica a carga de treinamento de uma sessão
de exercícios, integrando a DURAÇÃO e a INTENSIDADE do treino para
fornecer um valor numérico único que representa o estresse fisiológico.
Desenvolvido pelo fisiologista esportivo Eric Banister, o TRIMP tem como base
principal a frequência cardíaca.
MODELOS
DE CÁLCULO DO TRIMP
Existem diferentes modelos matemáticos
para calcular o TRIMP, cada um com suas próprias vantagens e aplicações:
1. TRIMP de Banister (O Modelo Original)
Proposto por Eric Banister em 1991, este
modelo é altamente individualizado, levando em conta a resposta da frequência
cardíaca de cada atleta e ponderando a intensidade de forma exponencial. Isso
significa que o tempo gasto em frequências cardíacas mais altas contribui muito
mais para a pontuação final. O é altamente individualizado, reflete bem o
estresse metabólico. Mas Requer conhecimento preciso da FC de repouso e máxima
e o cálculo complexo.
Fórmula:
TRIMP = Duração (min) × ΔFCr × Fator de Ponderação (y)
Onde:
ü
Duração: Tempo total do treino em
minutos.
ü
ΔFCr (Delta FC ratio): Fração da sua
“reserva de frequência cardíaca” utilizada durante o treino.
ü
ΔFCr = (FCmédia do treino - FCrepouso) /
(FCmáxima - FCrepouso)
ü
Fator de Ponderação (y): Coeficiente que
torna a relação exponencial, variando por sexo: *Para homens: y =
0.64 × e^(1.92 × ΔFCr) *Para mulheres: y = 0.86 × e^(1.67 ×
ΔFCr)
2. TRIMP Zonal (Modelo de Edwards)
O modelo proposto por Edwards (1993)
é mais prático, pois simplifica o cálculo dividindo a INTENSIDADE em cinco
zonas de frequência cardíaca, onde o TEMPO gasto em cada zona é multiplicado
por um fator simples. Muito fácil de calcular, intuitivo e compatível
com a maioria dos dispositivos. O modelo é menos preciso que o modelo de Banister,
pois trata todos os esforços dentro de uma mesma zona com o mesmo peso.
Fórmula:
TRIMP = (TZ1 × 1) + (TZ2 × 2) + (TZ3 × 3) + (TZ4 ×
4) + (TZ5 × 5)
Onde:
Ø T_Zx:
Tempo em minutos gasto na Zona “x”.
As Zonas são percentuais da sua
Frequência Cardíaca Máxima (FCmáx):
ü
Zona 1 (Z1): 50–60% da FCmáx
ü
Zona 2 (Z2): 60–70% da FCmáx
ü
Zona 3 (Z3): 70–80% da FCmáx
ü
Zona 4 (Z4): 80–90% da FCmáx
ü
Zona 5 (Z5): 90–100% da FCmáx
Exemplo Prático (TRIMP de Edwards):
Cenário: Um corredor com FCmáx = 190 bpm. Treino de 60
minutos.
Zonas de FC: * Z1 (50-60%): 95-114 bpm * Z2
(60-70%): 114-133 bpm * Z3 (70-80%): 133-152 bpm * Z4 (80-90%): 152-171 bpm *
Z5 (90-100%): 171-190 bpm
Tempo Gasto em Cada Zona: * Zona 1: 10 minutos
* Zona 2: 35 minutos * Zona 3: 0 minutos * Zona 4: 15 minutos * Zona 5: 0
minutos
Cálculo:
TRIMP = (10 × 1) + (35 × 2) + (0 × 3) + (15 × 4) +
(0 × 5)
TRIMP = 10 + 70 + 0 + 60 + 0
TRIMP = 140
O treino gerou 140 TRIMP.
3. TRIMP de Lucia (Específico para Limiares)
Este modelo refina o conceito zonal ao
focar em três zonas delimitadas por limiares fisiológicos (Limiar Ventilatório
1 - LV1 e Limiar Ventilatório 2 - LV2), que são determinados em
testes de esforço em laboratório. Este modelo é mais preciso fisiologicamente,
reflete melhor a transição entre os sistemas de produção de energia. Requer
testes de ergoespirometria em laboratório, o que é caro e pouco acessível.
Fórmula:
TRIMP = (T_Z1 × 1) + (T_Z2 × 2) + (T_Z3 × 3)
Onde: * Zona 1 (Z1):
Intensidade abaixo do LV1. * Zona 2 (Z2): Intensidade entre o LV1 e
o LV2. * Zona 3 (Z3): Intensidade acima do LV2.
TSS
(Training Stress Score)
O TSS, ou Pontuação de
Estresse de Treinamento, é uma métrica desenvolvida por Andrew Coggan e
popularizada pela plataforma TrainingPeaks. Assim como o TRIMP, o
TSS quantifica a carga de treinamento, mas utiliza a potência como
principal medida de intensidade. É o padrão-ouro em esportes baseados em
potência, como o ciclismo.
Conceitos Fundamentais do TSS
Potência Normalizada (Normalized Power® - NP®)
A NP é uma estimativa do custo
fisiológico real de um treino, levando em conta as variações de intensidade.
Ela representa a potência que você teria mantido se o seu esforço tivesse
sido perfeitamente constante durante todo o treino. Diferente da
potência média, a NP pondera os picos de esforço, dando a
eles um peso desproporcionalmente maior, o que reflete melhor o estresse
metabólico. A Potência Normalizada é uma métrica que busca fornecer uma
estimativa mais precisa da intensidade fisiológica real de um treino do que a
simples potência média. Enquanto a potência média pode ser diminuída por
períodos de baixa potência como descidas ou paradas, a Potência Normalizada
leva em conta a variabilidade do esforço e dá mais peso aos picos de alta
intensidade, que são metabolicamente mais custosos.
O cálculo da Potência Normalizada (NP) é
um processo de quatro etapas projetado para refletir a demanda fisiológica real
de um treino, suavizando as flutuações de potência, mas dando mais importância
aos períodos de alta intensidade.
Calculo:
- Cálculo da Média Móvel de 30 segundos: Primeiro,
calcula-se uma média móvel de 30 segundos para todos os
dados de potência do treino. Isso significa que, para cada ponto de
dados, é calculada a média da potência daquele ponto e dos 29 segundos
anteriores.
- Elevar os Valores à Quarta Potência: Cada valor dessa
média móvel de 30 segundos é então elevado à quarta potência. Este passo é
crucial, pois ele amplifica significativamente o impacto dos picos de alta
potência e diminui a importância dos períodos de baixa potência.
- Calcular a Média dos Valores Elevados: Em seguida, é
calculada a média de todos os valores que foram elevados à quarta potência
no passo anterior.
- Tirar a Raiz Quarta da Média: Por fim, a raiz quarta
dessa média é calculada. O resultado final é a sua Potência Normalizada
(NP) para o treino.
Em resumo, a fórmula é expressa
como:
NP = ⁴√ ( Média ( (Média Móvel de
30s da Potência)⁴ ) )
Este método garante que a NP seja sempre
igual ou superior à potência média. A única situação em que a Potência
Normalizada seria igual à potência média é se a potência fosse mantida
perfeitamente constante durante todo o treino, sem qualquer variação.
Fator de Intensidade (Intensity Factor® - IF®)
O IF mede o quão intenso o treino
foi em relação à capacidade atual do atleta (seu FTP - Functional Threshold
Power). É a relação entre a Potência Normalizada (NP) do treino e o FTP
do atleta.
Fórmula:
IF = NP / FTP
Cálculo do TSS
O cálculo do TSS é baseado na Potência
Normalizada (NP), no Fator de Intensidade (IF) e na
duração do treino.
FÓRMULA COMPLETA
TSS = [(Duração em segundos × NP × IF) / (FTP ×
3600)] × 100
Onde:
ü
Duração em segundos: Tempo total do
treino em segundos.
ü
NP: Potência Normalizada (watts).
ü
IF: Fator de Intensidade (adimensional).
ü FTP: Functional Threshold Power (watts).
ü
3600: Constante para converter segundos
em horas (segundos em uma hora).
Fórmula Simplificada:
TSS = Duração (em horas) × IF² × 100
Ambas as fórmulas produzem o mesmo
resultado, sendo a segunda uma reorganização matemática da primeira.
Exemplo Prático (TSS):
Cenário: Ciclista com FTP = 250 watts.
Treino de 90 minutos (1,5 horas).
Dados do Treino:
Duração:
90 minutos (5400 segundos) * Normalized Power (NP):
235 watts
Cálculo do IF:
IF = NP / FTP = 235 / 250 = 0,94
Cálculo do TSS (Fórmula Simplificada):
TSS = Duração (em horas) × IF² × 100
TSS = 1,5 (horas) × (0,94)² × 100
TSS = 1,5 × 0.8836 × 100
TSS = 132,54 ≈ 133
Ø
O treino gerou 133 TSS.
Cálculo do TSS (Fórmula Completa):
TSS = [(5400 × 235 × 0,94) / (250 × 3600)] × 100
TSS = [1.192.860 / 900.000] × 100
TSS = 1.3254 × 100 TSS = 132,54 ≈ 133
O resultado é o mesmo, 133 TSS.
Comparação
TRIMP vs. TSS
|
Característica |
TRIMP (Training
Impulse) |
TSS (Training Stress
Score) |
|
Base de
Cálculo |
Frequência
Cardíaca |
Potência |
|
O que Mede |
A resposta
fisiológica do corpo ao estresse (o quão “caro” o treino foi para o
sistema cardiovascular). |
O trabalho
mecânico realizado (a carga de trabalho externa que foi produzida). |
|
Objetividade |
Mede a
resposta fisiológica ao esforço. Pode ser influenciado por fatores externos
(calor, estresse, cafeína). |
Mede o
trabalho mecânico realizado. É mais objetivo e menos suscetível a variáveis
externas. |
|
Esportes Comuns |
Corrida,
natação, esportes coletivos (onde a potência é difícil de medir). |
Ciclismo,
corrida com medidor de potência. |
|
Vantagem Principal |
Acessível
(basta um monitor cardíaco) e reflete o estresse cardiovascular total. |
Precisão e
consistência na medição da carga de treino. |
Exemplo de Comparação (TRIMP de Lucia vs. TSS)
Cenário: Ciclista, FTP = 300 watts. LV1
= 140 bpm, LV2 = 165 bpm. Treino de 75 minutos (Sweet Spot).
Dados do Treino:
Ø
NP: 282 watts
Ø
Tempo abaixo de 140 bpm (Z1): 20 minutos
Ø
Tempo entre 140 e 165 bpm (Z2): 50
minutos
Ø
Tempo acima de 165 bpm (Z3): 5 minutos
Cálculo do TRIMP de Lucia:
TRIMP = (20 × 1) + (50 × 2) + (5 × 3)
TRIMP = 20 + 100 + 15
TRIMP = 135
Cálculo do TSS:
IF = NP / FTP =
282 / 300 = 0,94
TSS = 1,25 (horas) × (0,94)² × 100
TSS = 1,25 × 0,8836 × 100
TSS = 110,45 ≈ 110
Neste exemplo, o TRIMP de Lucia
(135) foi mais alto que o TSS (110). Isso pode indicar um
“desacoplamento cardíaco”, onde a frequência cardíaca aumenta progressivamente
para manter a mesma potência devido a fatores como fadiga, desidratação ou
calor. O TSS mede o estímulo (trabalho externo), enquanto o TRIMP
mede a resposta fisiológica (custo interno). Usar ambos fornece uma
visão mais completa do estresse do treinamento.
O TRIMP e TSS são
ferramentas poderosas para atletas e treinadores. Enquanto o TRIMP, baseado na
frequência cardíaca, é mais acessível e reflete o estresse cardiovascular,
o TSS, baseado na potência, oferece uma medida mais objetiva do
trabalho mecânico realizado. A escolha da métrica depende do esporte, da
disponibilidade de equipamentos e do nível de detalhe desejado no monitoramento
da carga de treinamento. O uso combinado de ambas as métricas, quando possível,
oferece a visão mais completa do impacto do treinamento no atleta.
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